A FAZENDA
Moro em São Paulo desde sempre. Na verdade, morei em São Bernardo do Campo algumas vezes. Mas desde muito tempo, o ABC tem as mesmas características da metrópole. Transito infernal, poluição de todo tipo, violência, falta de infra-estrutura, limitações na área de esporte,lazer e entretenimento. A cidade pede seu preço e o cidadão perde seu espaço. Esse preço é bem alto e esse espaço bem caro.
Lembro de quando ia ao Parque da Aclimacão, na minha infância, e achava que aquele lugar era uma floresta dentro da cidade. Muito pequeno, aquela área verde me impressionava. O Ibirapuera foi uma descoberta sensacional. As alamedas, o lago, as construções estranhas. O Planetário, o MAM, aquela marquise, tudo era muito bonito. Ainda é. Mas agora, parece ser insuficiente. Vou sempre ao “Ibira” pra correr. Em determinados horários fica difícil manter o rítmo. Muita gente concentrada no mesmo espaço. O lugar fica lotado. Faltam outros parques na cidade. Há uns 8 anos atrás, escrevia na revista Venice que o Parque Villa Lobos estava abandonado. O mato tomava conta daquele lugar. Ninguém se arriscava a frequentar o “Villa”. Alguém tomou providências e hoje dá pra correr, andar de bicicleta. Mas ainda é pouco. São Paulo precisa de mais. Comentava com um amigo ligado a secretaria de meio-ambiente que o trânsito está insuportável. A populacão perde horas nas ruas entupidas da cidade. O transporte coletivo não dá conta do contingente populacional, os automóveis se esbarram por uma vaga, os pedestres parecem atletas olímpicos pulando calçadas irregulares, cheias de buracos, desviando de motoboys que avançam a faixa de segurança, gritando com o motorista de ônibus que se nega a parar no ponto.
Assim fica difícil. O prefeito Kassab tomou aquela decisão de regulamentar as propagandas no espaco público e, admito, a cidade ficou mais bonita. Mas isso não é o mais importante. Preciso de uma vida saudável. A cidade tem que funcionar.
Às vezes, me pego na varanda do meu apartamento, contemplando as vaquinhas pastando, os cavalinhos relinchando. Moro em frente à última fazenda do Morumbí. À noite, os sapos coacham e eu quase esqueço do caos urbano. Quase, se não fosse a necessidade de me integrar ao sinistro quadro paulistano. Nos feriados, reluto em sair daqui. São Paulo se torna a cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, sem trâsito, sem filas, sem atropelos. Vejo as pessoas se entrevando nas rodovias e penso que elas precisam do caos. Eu não. Eu adoro a cidade vazia. Enquanto cheia, fico com a fazendinha das vaquinhas e dos sapos. Até quando a fazendinha vai resistir à especulação imobiliária? Já fotografei a cena. Pra mostrar pros amigos no futuro. Um futuro incerto, sem dúvida. Vidinha dura essa de São Paulo.
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